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Entrevista com Lau Siqueira

 


Hoje, encontro com Lau Siqueira, poeta, escritor e coordenador financeiro da campanha do Partido Socialista Brasileiro.


 


                           


 


1 - Quando você começou a escrever?fficeffice" />


 


Quando comecei a escrever era muito jovem. Um menino. Eu morava perto de uma biblioteca pública numa pequena cidade do extremo sul do Brasil. Era um leitor voraz. E foi depois de ler o livro “Os sonhos de José”, de José Antônio Raupp que comecei realmente a escrever. O protagonista escrevia tudo o que sentia. Então,passei a imitá-lo e estou a imitá-lo até hoje. Eu devia ter uns 11 anos nessa época. 


 


 


2 – Lembra do seu primeiro poema?


 


Não lembro do primeiro poema, mas lembro muito bem que eu tinha mais ou menos uns 13 anos quando li pela primeira vez o poeta romântico brasileiro, Castro Alves. Eu que já estava escrevendo “anotações” do cotidiano por influência do personagem de Sérgio Antônio Raupp, impressionado com o discurso abolicionista do poeta Castro Alves,que lutou pelo fim da escravidão no meu País, no final do século XIX, passei a escrever poemas engajados. Naquela época, vivíamos uma ditadura das mais violentas por aqui. Tudo era silêncio. Para mim, somente a poesia falava. E até hoje, em mim, a poesia é, em mim, o que não cala. Ainda que não faça mais poemas engajados.  Concordo com Maiakovski: ”não existe poema revolucionário sem forma revolucionária”. Hoje estou muito mais engajado na forma.


 


 


3 – Você publicou três livros: O Comício das Veias (Paraíba: Editora Idéia, 1993), O Guardador de Sorrisos (Paraíba: Editora Trema, 1998) e Sem Meias Palavras (Paraíba: Editora Idéia, 2002). É cedo para um quarto?


 


Não sei se é cedo, mas o quarto livro (Texto Sentido) já está pronto. Estou aguardando as melhores condições de publicá-lo, seja por uma editora que demonstre interesse, ou de forma indepedente, como fiz até hoje. Minha expectativa é publicar por uma editora de porte, que faça uma distribuição nacional. Tenho uma perspectiva concreta que espero que se cumpra. Nem tenho pressa. Acredito muito em uma frase de Clarice Lispector, uma das mais importantes escritoras brasileiras : « é incrivel a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer. »


 


 


4 – Você publica  em várias revistas mas, também na Internet, principalmente através o teu Blog. Esta é uma maneira de tocar o mundo?


 


Eu procuro espaços para que a minha poesia seja lida. Não tenho preconceitos. Não busco os cânones, os feudos literários. E penso que o meu blog é, hoje, o meu melhor espaço. É a minha oficina. É onde deixo registrada a minha relação com a palavra e com a vida, de forma muito espontânea. Gosto do intercâmbio que ocorre com isso. Por exemplo, foi assim que conhecivocê, Corinne.


 


 


5 - Qual é o papel do poeta na sociedade actual?


 


Não é diferente do papel de qualquer cidadão ou cidadã em qualquer época. O papel do poeta é fazer a sua parte para que o mundo seja mais humano, mais igualitário. É ser justo, translúcido, honesto com a arte e com a vida. O papel do poeta é, sobretudo, escrever poemas sem pensar que é um ser especial somente por conta desse ofício. Todos somos especiais. Como o nosso objeto é a beleza, devemos ter muito cuidado com as fossas da vaidade. 


 


 


6 – O que você acha de intercâmbios culturais com outros países?


 


Fundamental porque as culturas se interligam. A gente sente ouvindo música flamenca, por exemplo, que existe um pouco de cultura árabe por ali. Então, principalmente neste mundo globalizado, tudo está em rede. A globalização da cultura é o contraponto da globalização econômica e política. 


 


 


7 – Você acha que a cultura não tem barreiras e nem distâncias ?


 


Exatamente. A arte é uma linguagem universal. E o que mais a enriquece é a diversidade. Por exemplo, aqui no Brasil, nas mais diferentes regiões, há uma fortuna oculta, muitas vezes marginalizada no campo da cultura. E aqui não é diferente de outros países e regiões. O que mais importa para que a cultura quebre todas as barreiras e distâncias,  é o respeito ás diferenças. Não pode uma cultura se sobrepor à outra, somente porque dispõe de meios mais eficientes de difusão e um atrelamento umbilical com o capitalismo. Defender a diversidade cultural significa cirar elos de resistência à dominação, ao imperialismo cultural.


 


 


8 – Qual é o teu poeta ou escritor francês preferido ?


 


Baudelaire, sem dúvidas ! Mallarmé, Rimbaud... são tantos. Mas, confesso que conheço muito pouco da poesia francesa contemporânea. Quem sabe você me ajuda a conhecê-la ?


 


 


9 – Quando publicarás  teus poemas em francês?


 


Nunca publiquei um poema em francês.  E te confesso que gostaria muito. Mas, nem tenho acesso a revistas ou sites de literatura de língua francesa nem tenho quem faça as traduções dos meus poemas. Estudei muito pouco o francês e, embora seja uma língua extremamente atraente, absorvi muito pouco.


 


 


10 - 2004 é ano de eleições ao Brasil e és coordenador financeiro de uma das candidaturas, mais precisamente, estás na coordenacão da campanha do Partido Socialista Brasileiro. Podes falar-nos mais em detalhe disso?


 


É verdade. Estamos a poucos dias de eleger os prefeitos e os vereadores das cidades brasileiras.E coube a mim, profissionalmente, ser o coordenador financeiro de uma candidatura do PSB na capital da Paraíba, estado localizado no Nordeste brasileiro. É a candidatura do deputado estadual Ricardo Coutinho,de quem sou chefe de gabinete, atualmente. É uma função espinhosa demais para um poeta. Existem muitos trâmites e a circulação do dinheiro precisa ser rigorosa e ao mesmo tempo ágil. Tenho buscado cumprir essa função com muita transparência. Tenho tido todos os cuidados necessários, estou cercado de contabilistas experientes e competentes. Agora é só prestar contas ao Tribunal Regional Eleitoral e, depois, desfrutar de um merecido descanso. Os detalhes estarão na prestação de contas que vou apresentarao Tribunal e isso ficará on line, disponível para todos.


 


 


11 – Uma palavra sobre a política de Lula ?


 


O governo Lula é um governo de alguns acertos e, infelizmente, muitos equívocos e contradições. Eu diria que tem cometido até mesmo algumas aberrações. Mas, reconheço que é o governo que pode dar ao país um outro perfil, com menos desigualdades sociais. E devemos saber que isso não depende só dogoverno,mas da capacidade da sociedade realizar uma interlocução com o Governo para resolver suas demandas reprimidas. Enfim, ainda que esteja longe do que os brasileiros esperavam, merece o nosso apoio porque cumpre um papel histórico na afirmação da jovem democracia brasileira. Ainda que o presidente Lula e o seu Partido dos Trabalhadores,algumas vezes, apresente um perfil pouco democrático e pouco transparente.


 


 


12 – O que pensas da lei que permite empresas privadas explorar a floresta amazônica, enquanto  Lula colocou a sua protecção como uma das suas prioridades duram a sua campanha eleitoral ?


 


Esta é uma das contradições e aberrações do Governo Lula. Tanto quanto a liberação dos transgênicos. A privatização da Amazônia é um crime contra a humanidade. Sou anarquista, não tenho essa visão hipócrita de pátria. Acho que a natureza é um patrimônio da humanidade. Seus benefícios devem ser partilhados pelos povos tanto quanto o petróleo dos tubarões árabes. Não podem ser privilégio de um país e, muito menos, de um grupo econômico privado.


 


 


 


13 – Lula tem declarado muito recentemente que « a arma de destruição maciça mais mortal é a fome » e chama os governos do mundo inteiro constituir um frente a fim de erradicá-la. Uma reacção a estes propósitos ?


 


O programa Fome Zero do Governo Lula é de uma hipocrisia sem tamanho. O problema da fome é um problema político. Lula tem esse discurso óbvio, apelativo, mas na prática o seu governo está fazendo quase nada para erradicar a fome. A reforma agrária, por exemplo, continua apenas no discurso. A economia brasileira continua atrelada aos ditames do FMI e da agiotagem internacional. Para erradicar a fome, deveria se começar pelo questionamento das dívidas externas dos países periféricos e não pelo discurso vazio, como  Lula tem feito.


 


 


14 – Poderia emitir-nos aqui mesmo um pequeno poema que resume tua visão do mundo actual ?


 


aos predadores da utopia


 


dentro de mim


morreram muitos tigres


 


os que ficaram
no entanto


são livres


 


 


15 – Uma última palavra ?


 


Vamos inundar o planeta Terra : pão e poesia para todos !


 



 


Agradeço-o muito Lau, ter-se consagrado do tempo nesta entrevista.


Ler o Blog do Lau :   Poesia Sim 


 

27.9.04 19:57
 



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